Almaraz e a insegurança nuclear

15 febrero, 2017 en Edición Impresa, Internacional

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Por: Maria João Gomes

A construção de um novo aterro de resíduos radioativos na central nuclear de Almaraz é uma realidade e pressagia mais um prolongamento na vida de uma central obsoleta, construída para funcionar até 2010 e que, só no ano passado teve 40 incidentes de segurança.

A licença de laboração da velha central termina em junho de 2020, mas a direção da empresa, propriedade   da Endesa, Iberdrola e Unión Fenosa, já comunicou que a quer renovar “para lá dos 50 ou 60 anos”.

Segundo dados fornecidos pelo Movimento Ibérico Antinuclear (MIA), tendo já amortizado o seu investimento, os lucro líquidos anuais por manterem a central a funcionar rondam o 161 milhões de euros por ano.

Após conversações infrutíferas com as autoridades espanholas e ao abrigo da legislação comunitária, o governo português apresentou, finalmente, uma queixa à Comissão Europeia visando travar a construção deste aterro , cujas obras estão prestes a começar.

Pelos vistos as últimas Cimeiras Ibéricas têm sido de pouca utilidade, e nem se debruçam sobre potenciais problemas como os de impacto ambiental transfronteiriço.

Portugal não aderiu à produção de energia nuclear e optou por energias renováveis. Uma decisão acertada do ponto de vista do respeito pelo ambiente e que tem tido custos que saem do erário público. Não pode ficar sujeito às ameaças de uma central de risco a 100 quilómetros da sua fronteira.

Mas parece que a Comissão Europeia tem pouco tempo para dedicar a atropelos ambientais, pois o porta voz do Comissário Europeu para o Ambiente informou que o procedimento de avaliação será moroso e poderá levar mais de um ano, sem interferir com desenvolvimentos do processo em Espanha.

É curiosos que Bruxelas seja tão célere e incisiva a interferir nas decisões de caráter financeiro do nosso país, como aconteceu recentemente com a Caixa Geral de Depósitos, e tenha que levar mais de um ano para se pronunciar sobre os riscos de uma central nuclear refrigerada pelas águas do rio Tejo, que já devia ter sido encerrada e que ameaça diretamente a vida das populações num raio de centenas de quilómetros, num cenário de contaminação radioativa.

Não se trata de uma ameaça longínqua e pouco provável. Convém refletir sobre os últimos acidentes nucleares que chegaram à comunicação social.

Dada a sua dimensão, as consequências dos desastres de Chernobyl ou Fukushima ainda não foram totalmente avaliadas, e talvez nunca o sejam, mas sabe-se que custam a saúde do planeta e de gerações e gerações de pessoas. No caso de Chernobyl, por exemplo, o leite contaminado provocou cancro da tiroide em mais de 6 mil crianças. E em Fukushima foi lançada no Oceano Pacífico a maior quantidade de água contaminada de que há história.

Enquanto se continuarem a adiar as despesas de desmantelamento e as decisões sobre o destino a dar ao lixo radioativo das centrais nucleares, enquanto as populações não estiverem atentas e participantes sobre estas questões e estas decisões, o respeito pela vida humana e a vida da Terra significarão cada vez menos.

A radioatividade não conhece fronteiras. Não se vê, não se ouve, nem se cheira, mas transmite-se insidiosamente   pelo ar e pela água e tem custos demasiado elevados para a humanidade.


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